Crítica: Profissão:Músico

profissão: músico

A popularização do MP3 e do download de músicas pela internet mexeu com a estrutura do comércio da indústria fonográfica, e de várias outras também. Este é um fato inquestionável e conhecido por muitos, principalmente pelos próprios artistas. Profissão: Músico é um documentário, dirigido por Daniel Ignácio Vargas, que aborda justamente esta mudança a partir da perspectiva desses artistas.

O documentário Profissão: Músico conta um pouco da experiência do Projeto CCOMA, um duo de jazz instrumental contemporâneo, com a história deles como pano de fundo e também possui relatos de outros artistas ao redor do mundo. A montagem do média metragem foi muito bem feita e possui um ritmo bem dinâmico, muitas vezes exibindo mais de um vídeo na tela ao mesmo tempo, com cortes bem rápidos, refletindo bastante as características do conceito mashup (mistura), que aliás caracteriza grande parte da produção desses próprios músicos.

No próprio site do média metragem Profissão: Músico tem-se a seguinte informação: “Agora, não basta só tocar. A profissão de músico mudou muito nos últimos anos. A internet trouxe o artista para perto do público e vice-versa, não importando mais se este músico vive em Londres ou no interior das montanhas do Sul do Brasil. O Faça Você Mesmo (DYI) é a forma revisitada para fazer o próprio marketing no mundo digital.” que é a premissa base deste documentário.

Infelizmente, a argumentação – assim como a premissa base – utilizada em Profissão: Músico é vaga demais e de certa maneira irrealista. O sonho de todo artista, independente da área, é poder viver somente da sua produção, mas são apenas poucos – exceções – que conseguem isto. O foco do documentário – e ele deixa claro logo no início – é justamente os músicos que não são essas minorias e que trabalham muito para conseguir sobreviver, ou seja, a realidade deles é completamente outra. Seria necessário um outro tipo de pensamento para poder se aprofundar em possíveis alternativas para esta outra realidade. Ou seja, não dá para ficar tendo como modelo de comparação as exceções de um mercado que já se sabe – e ele mesmo afirma isso – estar em ruínas, o que infelizmente não acontece no documentário, ele fica preso na visão saudosista de como as coisas eram melhores no passado.

A impressão que fica é que o responsável por isso foi de certa forma a internet. Será que foi esquecido que a maioria dos artistas não faz parte do pequeno grupo de exceções e que tem que batalhar e ir atrás de conseguir ganhar o seu pão e de divulgar o seu trabalho? Pelo meu conhecimento – posso estar enganado – faz muito tempo, bem antes da idade média, que artistas muitas vezes precisavam fazer outra coisa para se sustentar, além da sua arte, apenas não havia na época o cargo de produtor, divulgador, etc, então eles acabavam sendo multi-profissionais sem mesmo saberem. As exceções também eram aqueles que, como hoje, conseguiam viver principalmente – difícil dizer se totalmente, talvez só aqueles que eram “apadrinhados” por alguém rico, que de certa forma os tornavam súditos de um só um senhorio – de sua arte, e estes muitas vezes ainda passavam por situações muito difíceis. Seria mesmo essa dificuldade um problema atual?

Outro ponto importante que também não foi questionado em Profissão: Músico é a qualidade da música produzida. Pode ser que um músico nunca venha a ter sucesso porque simplesmente ele não possui um público que goste da música dele, ou ele é tão pequeno que não consegue sustentar o artista. E é justamente a internet que consegue ajudar os artistas a encontrarem seu público, que muitas vezes pode estar segmentado em várias partes do mundo. Vejo ela mais como uma solução do que parte do problema. Só aqui no Brasil temos dois exemplos de músicos que conseguiram chegar a fama graças a internet: Mallu Magalhães e a banda Cansei de ser Sexy. Além disso, há vários sites que ajudam estes a divulgar seu trabalho, e até ganhar dinheiro, como o MySpace e o brasileiro Trama Virtual.

Durante Profissão: Músico são recolhidos depoimentos de vários artistas do mundo inteiro e, em específico, as opiniões dos músicos Naná Vasconcelos e Philip (também dono de uma loja de discos na França, pelo que eu pude achar), são geniais em suas observações sobre como o mercado mudou e qual é a realidade do artista agora. Apesar dos vários problemas, o documentário vale a pena ser assistido justamente pela opinião desses dois músicos.

Para mais informações sobre o documentário, visite o site oficial do projeto.

Só para não gerar nenhum mal entendido: de maneira alguma invalido o trabalho dos criadores do documentário ao expressar minhas observações acima. Acredito que opiniões diferentes são uma ótima oportunidade de diálogo e também de aprendizado para todos que participam da conversa.

Trailer:


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Comentários

  1. avatar fernando teixeira disse:

    musica sempre esteve presente na cultura do ser humano, porem os que faziam a musica por meio de instrumentos ou voz, sempre foram tidos como dotados de algo digno dos deuses, isso quer dizer que na biblia davi acalmava saul com uma harpa, que o proprio anjo caido era dotado do dom de dominar instrumentos, hoje em dia, culturalmente falando, esse dom e por se dizer amor, ficou menosprezado, até o ponto de ser conciderado hobie, pensam que é só estudar que se torna um instromentista, a propria historia desmente tais conceitos,mestres milagrosos, surgiram do nada ou do pouco, e fizeram verdadeiras obras primas,o ser humano tem de valorizar mais a arte, a beleza do dom, os milagres de alguem com amor ao que nasceu para fazer,ai sim, usufruir dos beneficios disso, musicos passam fome, vivem dificuldades proficionais, e ficam ao canto da vida social,verdadeiros milagres são supremidos e se diluem em prol do capitalismo que só vê lucros, o amor e a beleza do musico nunca deveriam ser desperdiçados.

Dossiê Daniel Piza
Spirallab