Livro: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace

O escritor norte-americano David Foster Wallace tirou a própria vida no ano de 2008, aos 46 anos. Deixou três romances (The Broom of System, Infinite Jest* e o póstumo e inacabado The Pale King*), três coletâneas de contos (Girl With Curiuos Hair, Brief Interviews with Hideous Men e Oblivion) e dois livros de não ficção que contém ensaios e reportagens (A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again e Consider The Lobster).

Fã do autor de Infinite Jest, o escritor Daniel Galera, entrou em contato com a agente literária de Wallace, Bonnie Nadell, no mesmo ano da morte de DFW, fazendo uma proposta para organizar e publicar uma coletânea com o melhor da sua não ficção como uma nova chance para os brasileiros de apresentar o autor, já que Breve Entrevistas com Homens Hediondos (lançado no país em 2005 pela Companhia das Letras) não teve uma boa recepção por parte dos leitores e da mídia. Além de ser um livro difícil, quase enciclopédico , não houve uma boa divulgação pela editora.

Galera recebeu o sinal verde de Nadelle e eis que temos Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo (organização e tradução Daniel Galera + Daniel Pellizzari, 312 páginas, Companhia das Letras, R$: 44,50). Para aqueles que não estão familiarizados com os textos de DFW em inglês e teve uma dificuldade para ler os contos de Breves Entrevistas, Ficando Longe é a melhor forma de ter um primeiro contato com a obra “daquele cara que usa bandana”.

A seleção ficou entre três reportagens : Ficando Longe do Fato de Estar Meio que Longe de Tudo, Uma Coisa Supostamente Divertida que Eu Nunca Mais Vou Fazer e Pense Na Lagosta. Um ensaio: Alguns Comentários Sobre a Graça de Kafka dos quais Provavelmente se Omitiu. O famoso discurso de paraninfo de 2005: Isto é Água. E uma crônica esportiva: Federer como Experiência Religiosa.

O texto que dá título a coletânea (Ficando Longe etc etc) é um ótimo cartão de visitas para quem não leu nada do DFW. A revista Harper´s Magazine em 1993 deu uma credencial para o falecido autor e disse “Olha, vai lá para aquele diacho de Feira Estadual de Illinois e apenas nos diga o que você viu, ok?”

A Feira Estadual de Illinois acontece anualmente na capital Springfield desde 1853 e tem como tema central a agricultura e demais outros eventos que são capitaneados por grandes corporações e tudo é regulado sob o signo do hedonismo predatório.

Wallace morou nas proximidades de onde ocorre a feira, mas mesmo assim levou uma Ajudante Nativa como guia em um lugar onde você já é recepcionado com uma faixa com os dizeres “A gente quer curtição!”. As conversas entre David e a Ajudante Nativa são hilárias, mas é bom prestar atenção às considerações do autor, onde a feira acaba sendo o ponto de partida para uma reflexão maior sobre a vida moderna e suas contradições.

A questão é: Estamos acostumados com aglomerações, caos e demais perturbações da vida na cidade grande. Logo, quando temos oportunidade, optamos por FICAR LONGE. Agora, quando você mora em Illinois, onde a noção de espaço é infinita (você fica semanas sem ver seus vizinhos), não há NADA a não ser grandes pastos, calor brutal, religiosos fanáticos, como é ir para uma Feira em um lugar que você está já está LONGE DE TUDO e encarar distrações além da conta? A resposta é: vocês vão ler e saber, oras. Parem de me olhar com essa cara.

Ainda temos no livro o famoso texto do cruzeiro (Uma Coisa Supostamente Divertida) onde o autor vai nos mostrar o quanto pode ser triste uma viagem em alto-mar mesmo sendo paparicado por todos os funcionários do navio. O ensaio sobre Kafka e sua veia cômica é interessante pela preocupação de Wallace – que foi professor universitário – sobre como ensinar um clássico da literatura para alunos mais interessados no entretenimento que só a América pode oferecer a eles.

Curioso como Pense na Lagosta, uma reportagem encomendada pela revista Gourmet, para cobrir a festa da Lagosta do Maine, gerou uma discussão no site da revista por causa do relato sobre as lagostas serem cozinhadas vivas e isso implicar numa consideração do autor sobre o método. E ainda tem o discurso Isto é Água (que virou viral no youtube e mantra de muita gente) e o relato da partida entre Federer e Rafael Nadal que pode parecer pouco , mas é o melhor primeiro contato com o autor de Infinite Jest.

Em algumas entrevistas recentes, Daniel Galera disse que vai fazer uma nova organização de textos de não ficção de David Foster Wallace. E ficamos no aguardo.

*É bom saber que está sendo feita no momento que você lê esse texto vergonhoso, a tradução de Infinite Jest, o mastodonte de 1100 páginas, pelo rapaz que atende pela alcunha de Caetano W. Gallindo. Ele também está traduzindo The Pale King. Você pode acompanhar tudo no Blog da Companhia das Letras.


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