Crítica: Um Bonde Chamado Desejo

O cinema e a literatura sempre tiveram uma estreita ligação, afinal o processo de criação de um leitor perante uma obra literária é de construção da imaginação. Com o surgimento do cinema, aumentaram as possibilidades de se ver atores/atrizes sendo dirigidos por grandes diretores e dando vida à grandes clássicos da literatura. E foi com essa premissa que nas primeiras décadas do surgimento da sétima arte, a maioria da produção era focada na adaptação dos livros para a tela, tendo seu auge na década de 50, com grandes clássicos Hollywoodianos .

Tennessee Williams foi um dos dramaturgos mais adaptados pro cinema e também um dos mais prolíficos, muito a frente de sua época. Teve uma vida complicada por causa de seus problemas com o pai e com a esquizofrenia de sua irmã. Sua depressão o levou ao alcoolismo mas, apesar disso, ele sempre escreveu peças extremamente instigantes e desafiadoras para os padrões de seu tempo. Sua peça mais interessante talvez tenha sido Um bonde chamado desejo (A streetcar named desire) , que fez imenso sucesso no teatro e foi adaptada para o cinema, pelo diretor Elia Kazan , sob o título Uma rua chamada pecado (A Streetcar Named Desire, EUA, 1951), contando com estrelas como a já famosa Vivien Leigh e o galã Marlon Brando.

Blanche DuBois (Vivien Leigh) é uma mulher independente e cheia de admiradores, mas após perder sua propriedade e ter uma crise de “nervos”, ela vai morar com sua irmã mais nova, Stella (Kim Hunter) e seu cunhado, Stanley (Marlon Brando). A delicadeza de Blanche logo entra em conflito com o comportamento agressivo de Stanley, criando uma tensão que nunca tinha sido exposta de tal forma no cinema.

Claro que o roteiro de Uma rua chamada pecado foi bastante modificado para o cinema, afinal a literatura já era uma arte com mais liberdade de ousadias do que o audiovisual e certas questões do enredo deveriam ser adaptadas para a sociedade da época. Algumas características que divergem do livro são bem visíveis, como a falsa inocência de Blanche, que teve um caso com um aluno de 17 anos e teve uma enorme variedade de amantes. Ainda, no original a questão da morte do marido de Blanche e o fato dele ser homossexual ficam bem claros, mas como na década de 50 esses assuntos eram tabus, eles são bem implícitos. Pelo fato do longa se focar de forma primorosa na tensão entre Blanche e Stanley, estas limitações não afetaram em praticamente nada o resultado final.

Uma rua chamada pecado, marca o retorno de Vivien Leigh aos cinemas, após seu imenso sucesso como Scarlett O’Hara, em E o Vento Levou, de Victor Fleming. Já Marlon Brando, ainda estava no começo de sua carreira. A química entre os dois atores é tão forte que o filme foi considerado erótico demais para a época, apesar de não haver contato algum entre Blanche e Stanley, mas a tensão entre os dois é tão forte que se torna sexual.

Fatos curiosos sempre circulam em torno de filmes clássicos, principalmente nos anos 50 em que Hollywood vivia uma efervescência cinematográfica. Vivien Leigh, por exemplo, sofria de transtorno bipolar, e em diversos momentos ela não conseguia distinguir a vida real da vida de sua personagem. Segundo as lendas, o diretor Elia Kazan se utilizou desse fato para dar mais vida à Blanche de Uma rua chamada pecado. Mórbido ou não, é mais uma das lendas que tornam o cinema hollywoodiano dessa época tão interessante. Não havia muitos recursos de imagem, de som e as maquiagens eram muito simples. A beleza das atrizes eram naturais e os “efeitos especiais” eram mínimos, dessa forma a atuação era o principal atrativo do filme. E nesse aspecto, os personagens de Brando e Leigh foram os mais perfeitos exemplos disso.

Mesmo que os filmes de aventura estivessem fazendo muito sucesso, assim como a ficção científica, Uma Rua Chamada Pecado mudou completamente o rumo desse segmento. Diversos elementos considerados polêmicos na época estão nesse filme e mesmo assim ele foi um enorme sucesso. Uma lição para os filmes atuais, que vivem repetindo a mesma fórmula e não atingem o mesmo patamar de atores e diretores, como Vivien Leigh, Marlon Brando, Elia Kazan e outros astros da época de ouro do cinema.

Cena do Filme:


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Dossiê Daniel Piza
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